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Eduardo Bolsonaro e a Indústria de Armas dos Estados Unidos

Na próxima vez que você assistir Eduardo Bolsonaro falando sobre armas em sua rede social, você pode perguntar:

Eduardo Bolsonaro trabalha para a indústria de armas dos Estados Unidos?

No vídeo, em novembro de 2021, Eduardo Bolsonaro busca sua nova arma customizada em loja de Brasília, com aplausos da representante da Sig Sauer no Brasil.

Listamos a seguir 10 fatos para que você reflita sobre o assunto.

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Conheça quem apresentou Eduardo Bolsonaro para a extrema-direita e a indústria de armas dos Estados Unidos e o principal motivo

Eduardo Bolsonaro foi apresentado para a extrema-direita americana e para a NRA (National Rifle  Association, a maior organização civil pró-armas dos Estados Unidos) no começo de 2016 por pelo menos dois brasileiros. O ex-lutador de jiu-jitsu Royce Gracie, que atua como promotor e garoto propaganda da indústria de armas e que é membro da NRA (veja video recente em que Royce Gracie visita a fábrica da Sig Sauer em New Hampshire). O outro foi Tony  Eduardo, catarinense proprietário do Clube de Tiro. 38 e instrutor de tiro da 88 Tactical, uma empresa situada na cidade de Omaha, no estado de Nebraska, nos Estados Unidos, e que ostenta símbolos relacionados ao nazismo. Tony Eduardo arrumou as credenciais da 88 Tactical para Eduardo Bolsonaro visitar a feira de armas Shot Show em Las Vegas em janeiro de 2016. A primeira interação entre Eduardo Bolsonaro e Tony Eduardo havia ocorrido em 12 de novembro de 2015 quando Eduardo repostou um vídeo em que Tony Eduardo criticava o Estatuto do Desarmamento. A partir dali trocaram contato. Eduardo Bolsonaro passou o Reveillon de 2016 em Florianópolis e em seguida conheceu pessoalmente Tony Eduardo no Clube de Tiro .38.

Royce Gracie e Tony Eduardo juntos ensinavam nos Estados Unidos técnicas de defesa pessoal para forças policiais e agentes de operações especiais da marinha americana (Seals). Royce Gracie e Tony Eduardo se juntaram a Eduardo Bolsonaro para apoiar a campanha presidencial de Jair  Bolsonaro em 2018 porque eles compartilhavam o mesmo objetivo: acabar com o Estatuto do Desarmamento que foi sancionado em 2003 pelo então presidente Lula da Silva.

Acesse o artigo publicado no site americano Seeing Red para ver as imagens de Eduardo Bolsonaro, Royce Gracie, Tony Eduardo e membros da NRA nas diversas vezes em que se encontraram na feira de armas Shot Show em Las Vegas.

Eduardo Bolsonaro já era favorável à idéia de aumentar a importação de armas de fogo no Brasil e de facilitar o acesso de civis ao seu consumo desde pelo menos 2017, quando criticava a qualidade das armas feitas pela Taurus. Uma matéria de 2020 da Folha de São Paulo revelou que Eduardo Bolsonaro fez lobby para a Sig Sauer fabricar pistolas no Brasil por meio da Imbel, empresa estatal de armas ligada ao Exército. O trato foi efetivado através de decreto assinado pelo Comandante Edson Leal Pujol em 17 de dezembro de 2020.

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O que de fato fazia Eduardo Bolsonaro quando seu pai disse que não o visitaria na Papuda. E como Eduardo conheceu Donald Trump Jr. e Steve Bannon.

Eduardo Bolsonaro foi ao Shot Show, o maior evento anual de armas de fogo nos Estados Unidos, nos anos de 2016, 2017 e 2018.

Em 2 de fevereiro de 2017, ainda como deputado federal, Jair Bolsonaro foi flagrado pelo fotógrafo Lula Marques quando enviava uma mensagem pelo Whatsapp ao seu filho Eduardo. Na mensagem, Jair disse que não visitaria Eduardo na Papuda caso a imprensa descobrisse o que ele fazia nos Estados Unidos. Pelo roteiro de viagem de Eduardo, identificado através de sequência de postagens em seu Instagram, ele não estava na Austrália (o que pode indicar que Jair e Eduardo mentiram quando se desculparam sobre o assunto).

Este foi o roteiro da viagem: Eduardo foi primeiro para a Virginia para se encontrar com Olavo de Carvalho. Dali foi para Las Vegas para a Shot Show onde se encontrou com Tony  Eduardo, Royce Gracie e membros da NRA (Carlos Bolsonaro também estava presente). Em seguida foi para Los Angeles, na Califórnia, para conhecer o arsenal de Yves Sousa, amigo de Tony Eduardo e diretor de negócios internacionais da 88 Tactical. Por último, Eduardo foi para o Havaí para se encontrar com amigos surfistas. As datas apontam que Eduardo estava no Havaí no dia anterior em que Jair mandou aquela mensagem pelo Whatsapp. Não há qualquer postagem de Eduardo Bolsonaro em seu Instagram mostrando que ele tenha passado pela Austrália no dia 2 de fevereiro de 2017. Após a bronca de Jair, o provável é que Eduardo tenha retornado imediatamente ao Brasil.

O que fazia Eduardo Bolsonaro de tão grave? No mínimo estava se relacionando com dirigentes da NRA.

Na Shot Show de 2017, que ocorreu entre 17 e 20 de janeiro, Eduardo Bolsonaro foi apresentado por Royce Gracie e Tony Eduardo a duas figuras importantes da NRA. O primeiro é John Bailey, Diretor de Operações da organização, e o segundo é Edward Friedman, Editor Chefe da organização e especialista em estratégia de comunicação e em gerenciamento de redes sociais. Na foto postada no Instagram de Eduardo Bolsonaro, John Bailey está no centro entre Eduardo e Royce Gracie. Edward é o segundo da direita para a esquerda entre Tony Eduardo e Yves Sousa (ambos da 88 Tactical). Carlos Bolsonaro está na foto ao lado de Eduardo.

Em janeiro do ano seguinte, 2018, Eduardo foi apresentado a Donald Trump Jr. por Royce Gracie (ambos membros da NRA) durante a Shot Show em Las Vegas. Em agosto daquele ano, Eduardo voltou aos Estados Unidos para se encontrar com Steve Bannon, presumidamente indicado por Donald Trump Jr.

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Steve Bannon, Donald Trump e NRA.

Assim como Royce Gracie e Donald Trump Jr., Steve Bannon também tem conexão com a NRA. Em 2016, quando Bannon era o CEO da campanha presidencial de Donald Trump, ele negociou com a NRA mais de 21 milhões de dólares em doação . Uma grande parte desse valor foi utilizado em propaganda para atacar a rival Hillary Clinton, que além de candidata a presidente, era favorável a uma maior restrição do acesso de armas por civis.

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A NRA já havia interferido antes no Brasil contra o Estatuto do Desarmamento. E também apoiou partido de extrema-direita da Austrália

A NRA não somente apóia candidatos da direita dos Estados Unidos, como também fornece suporte para grupos estrangeiros pró-armas e partidos de extrema-direita. Eles oferecem consultoria jurídica, estratégias de comunicação e contatos com influentes empresários interessados em investir milhões de dólares nesses grupos e partidos. Em 2003, um lobista da NRA chamado Charles Cunningham viajou para o Brasil para apoiar grupos pró-armas e discutir estratégias de comunicação nas vésperas do referendo sobre o desarmamento. O lobista foi ao Brasil convidado pela Sociedade Brasileira para a Defesa da Tradição, Família e Propriedade. Um dos membros mais importantes dessa sociedade foi Dom Bertrand de Orleans e Bragança, que depois veio a se tornar um dos ícones do bolsonarismo.

No período entre 2016 e 2018, enquanto Eduardo Bolsonaro contatou a NRA diversas vezes, a organização se envolveu com o partido de extrema-direita australiano chamado One Nation. Na sede da NRA, em Fairfax, no estado da Virginia (e próximo a Washington), alguns dirigentes do partido estavam pleiteando financiamento para a sua campanha eleitoral de 2019.

Eles prometeram a NRA que se eles conseguissem eleger alguns parlamentares, eles mudariam a legislação que controla o uso de armas em seu país. Eles, portanto, facilitariam o acesso e o comércio de armas na Austrália.

A NRA apresentou os dirigentes do partido One Nation a executivos das Indústrias Koch para tratar sobre valores necessários ao financiamento de suas campanhas. Os políticos inclusive sugeriram que o dinheiro poderia ser utilizado para multiplicar sua presença nas redes sociais e que a operação poderia ser controlada a partir dos Estados Unidos. A conexão entre a NRA, o partido One Nation e as Indústrias Koch foi revelada pela Al Jazeera num documentário chamado How To Sell a Massacre (Como vender um massacre).

Eduardo Bolsonaro exibe sua carteira de membro da NRA que foi enviada por correio direto ao seu Gabinete, dentro do Congresso Nacional

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A campanha de 2018 de Jair Bolsonaro, as fakenews e o financiamento

A campanha de 2018 de Jair Bolsonaro foi definida pelo disparo em massa de fakenews pelas redes sociais e especialmente pelo Whatsapp, financiado por mais de 150 empresários para atacar o candidato rival Fernando Haddad, do PT. As alegações foram publicadas em reportagem de capa do jornal Folha de São Paulo.

Ainda é incerto se a campanha de Jair Bolsonaro de 2018 recebeu financiamento de agentes externos, mas o presente artigo tem o objetivo de questionar se a campanha de 2018 de Jair Bolsonaro recebeu apoio financeiro direto ou indireto da NRA ou das grandes empresas relacionadas a tal associação, incluindo empresas que fabricam e distribuem armas de fogo, mas também outras empresas que têm como histórico ajudar partidos de extrema-direita em diversos países (como, por exemplo, as Indústrias Koch, o que explicamos adiante no “fato número sete”).

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Desde o seu início, o governo Bolsonaro vem atuando para facilitar o comércio de armas de fogo

Com apenas duas semanas de governo, em 15 de janeiro de 2019, Jair Bolsonaro assinou seu primeiro decreto para alterar o Estatuto do Desarmamento e facilitar o acesso de armas para civis. Até fevereiro de 2021, Bolsonaro já havia assinado 14 decretos além de outras 14 resoluções ministeriais feitas para facilitar o acesso e o comércio de armas de fogo e de munições.

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O governo Bolsonaro liberou centenas de agrotóxicos e pode ter beneficiado as Indústrias Koch

No primeiro ano do governo Bolsonaro, a legislação que controla fertilizantes agrícolas foi alterada diversas vezes. 467 agrotóxicos foram aprovados. 44% destes eram banidos em países europeus. As Indústrias Koch, que tinham se encontrado antes com o partido de extrema-direita australiano One Nation para discutir financiamento de campanha, é um dos maiores produtores mundiais de fertilizantes agrícolas. Uma investigação ainda precisa ser feita para descobrir quanto as Indústrias Koch podem ter lucrado após as mudanças na legislação brasileira. É bastante plausível considerar que as Indústrias Koch estariam interessadas em discutir o financiamento da campanha de Jair Bolsonaro de 2018, uma vez que a empresa se reuniu com a extrema-direita australiana no mesmo período  entre 2016 e 2018. Para um conhecimento mais detalhado sobre a influência das Indústrias Koch na extrema-direita, recomendamos o livro Dark Money – The Hidden History of the Billionaires Behind the Rise of the Radical Right, da premiada jornalista Jane Mayer.

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A importação de armas de fogo disparou no governo Bolsonaro

A importação de armas no Brasil cresceu exponencialmente desde 2018, ano em que Jair e Eduardo atuavam como deputados visando a revogação do Estatuto do Desarmamento ao lado do deputado catarinense Rogério Mendonça, o Peninha, do MDB. Segundo reportagem da CNN, em 2017 a importação de pequenas armas (revólveres e pistolas) representaram 2.2 milhões de dólares. Em 2018, o valor aumentou mais de 5 vezes para 11.8 milhões. Em 2019, com Bolsonaro já presidente, o valor quase  dobrou para 21.2 milhões e em 2020 saltou para 29.3 milhões de dólares. Em 2020, a maioria das armas foram importadas da Áustria, onde a marca Glock é fabricada, seguido pelos Estados Unidos.

A importação de armas de fogo disparou no Brasil desde o ano de 2018 e a eleição de Jair Bolsonaro

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Eduardo Bolsonaro promove o grupo Pró-Armas no Brasil

Eduardo Bolsonaro frequentemente promove o grupo Pró-Armas em suas redes sociais. É nítida a intenção do Pró-Armas em se tornar a versão brasileira da NRA. Assim como a associação norte-americana, o Pró-Armas oferece consultoria legal para comerciantes de armas, clubes de tiro e associações de caçadores. Além disso, eles também oferecem diversos planos para membros associados. O grupo tem representantes em pelo menos 10 estados no país. Eduardo Bolsonaro, em 31 de outubro de 2021, postou em seu Instagram uma foto ao lado de Donald Trump Jr. na qual relacionou diversas filiais do Pró-Armas. Clique sobre a primeira e a terceira imagem da postagem.

Recentemente, em 8 de dezembro, o diretor do Pró-Armas, Marcos Pollon, estava em Brasília fazendo lobby com diversos senadores, incluindo Rodrigo Pacheco, para passar outra lei que venha a assegurar mais flexibilização à legislação que regulamenta o acesso às armas de fogo no país.

Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, demonstrou claro apoio às demandas do grupo Pró-Armas, como pode ser visto no vídeo.

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Representante da NRA esteve no Clube de Tiro. 38 na véspera da facada em Jair Bolsonaro

E por último, um fato que pode interessar especialmente àqueles que suspeitam sobre o episódio da facada em Jair Bolsonaro, o considerando uma farsa arquitetada por Steve Bannon. Em 5 de setembro de 2018, no dia anterior ao atentado, o representante da NRA Royce Gracie veio ao Brasil e se encontrou com Bene Barbosa, considerado o mais influente ativista pelas armas de fogo no país, no Clube de Tiro .38, de propriedade de Tony Eduardo (aquele que apresentou Eduardo Bolsonaro à indústria de armas dos Estados Unidos a partir de 2016). Dois meses antes, Adélio Bispo de Oliveira havia passado pelo local em datas que coincidiram com a presença de Carlos Bolsonaro.

No mesmo dia em que Royce Gracie e Bene Barbosa estiveram no Clube de Tiro .38, Eduardo Bolsonaro mandou, através de seu Instagram, um recado para a NRA contra o Estatuto do Desarmamento.

Também vale lembrar que a porta-voz do clube de tiro, Júlia Zanatta, ganhou de Jair Bolsonaro, em abril de 2021, um cargo executivo na Embratur e que desde então vem operando com Eduardo Bolsonaro no sul do país para aumentar o comércio de armas de fogo, usando seu cargo e as redes sociais para fomentar clubes de tiro e associações de caçadores.

Bene Barbosa é o mais importante ativista pelas armas de fogo no Brasil. Bacharel em direito e co-autor do livro “Mentiram para mim sobre o Desarmamento”. Desde pelo menos 2005, Bene Barbosa vem assessorando parlamentares, incluindo Jair Bolsonaro quando deputado, para criar projetos de lei que possam revogar o Estatuto do Desarmamento. Atualmente, Bene Barbosa reside em Florianópolis e enriquece como figura principal do Projeto Policial, empresa que promove cursos de tiro e treinamento de defesa pessoal
Eduardo Bolsonaro mandou um recado para a NRA contra o Estatuto do Desarmamento na véspera do episódio da facada em Jair Bolsonaro. Certamente, a mensagem foi vista pelos seus colegas Royce Gracie, Tony Eduardo e Bene Barbosa